A nova rotulagem nutricional

Rufem os tambores. Algumas das pessoas mais engajadas deste país na questão da rotulagem nutricional se uniram para desenvolver e apresentar à Anvisa um modelo mais adequado do que o atual para orientar os consumidores na escolha de alimentos industrializados mais saudáveis.

Ele foi criado a partir de robustas pesquisas acadêmicas e experiências internacionais anteriores, e com os objetivos de promoção da saúde previstos nas melhores políticas públicas e no Guia Alimentar Para a População Brasileira.

Agora, esse modelo precisa ser discutido pela sociedade, se for o caso, aprimorado, e finalmente aprovado oficialmente na Anvisa, por meios dos procedimentos democráticos previstos pela legislação brasileira, que passam por consulta pública e, possivelmente, harmonização no Mercosul.

Pra isso, a pressão da sociedade brasileira pela aprovação do melhor modelo que pudermos ter é de suma importância. A seguir, apresento o modelo entregue à Anvisa pelo Idec (cuja nutricionista estudou a fundo os modelos preexistentes) e pesquisadores da área de design da UFPR, com suas justificativas.

Leia os materiais que preparei para você, busque informações novas, entenda a proposta a fundo, manifeste-se publicamente e compartilhe seus novos conhecimentos com o maior número de pessoas que puder. A cidadania se faz assim, com você participando ativamente.

O triângulo negro

A vedete da proposta apresentada pela turma de nutricionistas e designers, com palpites desta jornalista que vos escreve, são as mensagens de alerta sobre o excesso maléfico de ingredientes como açúcar, sal e gorduras ruins, dentro de triângulos negros com contorno lago, grandes e bem visíveis. Esse selo de alerta deverá ser OBRIGATORIAMENTE impresso na parte da frente da embalagem de todo e qualquer alimento processado ou ultraprocessado que contiver esses ingredientes em excesso. Assim, vai ficar difícil disfarçar alimentos não saudáveis como se fossem saudáveis, não acha?

Melhor que o do Chile

A maior fonte de inspiração desse selo foi o modelo do Chile, em vigor desde 2016. O Chile também adotou um selo negro para alertar sobre o excesso desses ingredientes que fazem mal à saúde quando ingeridos em grandes quantidades, mas em vez de triângulo lá estão usando um octógono.

Os designers da UFPR (Carla Spinillo e Carlos Urquizar) explicaram que o o octógono se aproxima de um círculo e acaba sendo uma imagem suave, ao passo que o triângulo, por ter pontas mais marcadas, transmite melhor a sensação de alerta. Como nós queremos que o selo chame muita atenção, quanto mais sensação de alerta, melhor.

Quando discutimos as adaptações necessárias ao modelo brasileiro, numa reunião no Idec em abril de 2017, eu sugeri que usássemos a palavra “muito” em vez de “alto em”, pra que a linguagem do selo ficasse mais próxima à da fala dos brasileiros. A turma concordou. E você, o que acha?

Como vai ficar

Veja ao lado dois exemplos de como o selo negro deverá aparecer nas embalagens (a ilustração foi feita pelos nossos queridos designers da UFPR). Note que o contorno branco garante que o selo preto fique destacado na embalagem vermelha. No caso do exemplo fictício de iogurte “grego”, que contém excesso maléfico de quatro ingredientes, quatro triângulos foram agrupados dentro de um mesmo retângulo branco, garantindo o destaque na embalagem predominantemente azul.

Além de estampar esses selos, a embalagem dos alimentos e bebidas que tiverem excessos maléficos desses ingredientes não poderão utilizar outras estratégicas de comunicação pra tentar se passar por produtos saudáveis, tais como alegações do tipo “rico em fibras” ou o uso de figurinhas de apelo infantil. A regra é que o que for produto não saudável seja rotulado como tal, sem eufemismos, ambiguidades ou margem para dúvidas. E ponto final.

Uma nova lista de ingredientes

Um dos grandes problemas na rotulagem atual é que a legislação não garante para a lista de ingredientes o destaque que ela merece.

Com base em seus trabalhos com bula de remédio, Carla e Carlos trouxeram parâmetros importantes de legibilidade para a nova proposta de rotulagem nutricional. Esse aí ao lado é o padrão de layout para a lista de ingredientes que eles desenharam a partir de todas as queixas que nós apresentamos nas discussões do grupo de trabalho (GT) de rotulagem geral lá na Anvisa — e que eu já denunciei em diversos vídeos. Eu disse PADRÃO. Isso significa que, se ele for aprovado, TODOS os rótulos deverão ter listas de ingredientes desse jeitão aí.

Listei abaixo os pontos positivos desse modelo:

Fonte Arial preta sobre fundo branco, pra acabar com aquela palhaçada de imprimir texto minúsculo e ilegível dificílimo de ler.
O número de ingredientes já vem previamente contado pra você saber logo quais são os produtos que contêm mais ingredientes que o necessário, provavelmente substituindo os que deveriam estar na receita e não estão.
Uso de ponto em vez de vírgula para separar os itens da lista, melhorando a legibilidade.
Negrito destacando itens mais importantes dentro da lista.
Marcador de texto amarelo, igual ao que a gente usa em livros e cadernos, pra destacar alguma informação especialmente importante.
A lista ficará obrigatoriamente localizada acima da tabela nutricional, pra que as duas fontes de informação possam ser cruzadas pelo consumidor.

A nova tabela nutricional

Falando em tabela nutricional, olha ela aí. Igualmente renovada.

O banho de loja, digo, de design que ela ganhou pela minha dupla preferida de designers privilegia a facilidade de leitura e interpretação. É pra ser literalmente preto no branco, com um amarelo pra chamar mais atenção para o que merece mais atenção.

Além disso, nesse modelo a informação nutricional apresentada deve se referir a uma quantidade de alimento padrão: o contúdo total do pacote ou 100 gramas. Isso serve para facilitar a comparação entre produtos da mesma categoria. É o fim das “porções mágicas” que antes confundiam a gente de propósito.

Olha aí um exemplo de como essas novidades poderão aparecer nos rótulos.

Ainda não acabou! Continue atento(a) aos e-mails que chegarão ao longo da semana, com mais detalhes desta história.

Obrigada por vir, e até o próximo.

7 Comments

  1. 11/09/2017 at 16:09

    Olá Francine, boa tarde!
    Parabéns pelas iniciativas da Equipe. O tema é urente e importantíssimo.

    Bem fiquei em dúvida em relação ao que seria considerado como “quantidade normal”. O que é muito de um determinado ingrediente?

    No que se refere ao formato triangular considero bem apontado, principalmente por estar sobre um quadrado branco. Isso acaba com a possibilidade de se disfarçar as informações.

    Considerei a a tabela e a marcação em amarelo também ficando ambas mais claras e visíveis ao consumidor.

    Por enquanto é isso.
    Aguardarei novas informações.
    Obrigado.
    Leonardo

    • 15/09/2017 at 08:40

      Oi, Leonardo. No terceiro post da série eu trago as respostas! Se restarem dúvidas, me chame! Obrigada pelo engajamento! Abraços!

  2. 12/09/2017 at 15:21

    Revolucionário! Parabéns Francine e todos os demais engajados em tornar a vida do consumidor mais fácil e livre de enganação.

  3. 13/09/2017 at 18:29

    Sempre informativa e didática, muito obrigado, Francine. Fiquei apenas com duas dúvidas. Primeiro, existem limites oficiais de consumo máximo para TODOS os ingredientes (para poder falar em “ingredientes em excesso”)? Segundo, qual o critério para definir quais ingredientes são os mais importantes dentro da lista (a serem, portanto, negritados)?

    • 15/09/2017 at 08:45

      Olá, Tasso. Assim como respondi ao Leonardo, acredito que tua dúvida será respondida no terceiro post da série. Chegará no teu e-mail. Se restarem dúvidas, me chame de novo! Abraços.

  4. 18/09/2017 at 22:55

    Francine, adorei a proposta e a divulgarei com muito orgulho.
    Pra mim, todos os pontos levantados foram bem importantes, mas fiquei com uma dúvida na lista de ingredientes. Hoje ela é colocada em ordem do que aparece em maior quantidade vem primeiro na lista. Da forma proposta, percebi que fica separado por categoria. Isso é porque os ingredientes que tem mais já aparecerão no triangulo preto? Desculpe a pergunta boba, mas isso fará bastante diferença na educação alimentar que ensinamos hoje (o que acho ótimo, diga-se de passagem!).
    Outra coisa muito boa que achei foi da quantidade das porções. Fazer um rótulo atualmente é horrível, pois precisamos consultar, pelo menos, três RDC diferentes, e ficar “encaixando” os ingredientes aqui e ali, para tentar adequar da melhor forma.
    Como toda a legislação é feita para a indústria, quando precisamos fazer rotulagem para produção artesanal é um verdadeiro tormento. Considerando que a nova proposta se baseia no Guia Alimentar Brasileiro para a População Brasileira, a alteração nas porções será muuuuuito eficaz! Que belo e importante trabalho. Parabéns a todos!!!!!

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