Ah, não. Tinha de ter pensado no leitor antes? Jura que não podia botar uma tabela com percentuais nos rótulos esperando que pessoas comuns que mal chegaram à quarta série aprendessem a fazer regra de três de cabeça pra tentar decifrar os números e decidir se vale a pena comprar o “cereal matinal” pra criança ou não? Mas, poxa, jura que precisava ter pensado antes no alfabetismo funcional, nas deficiências visuais, na velhice, no nível do ensino no país? Jura que precisava admitir que letras miúdas grafadas em preto sobre fundo vermelho brilhante não são legíveis para quem não tem olho biônico? Então sério mesmo que era indispensável adotar normas já existentes de legibilidade, leiturabilidade e articulação textual (conceitos do design da informação) para garantir que qualquer reles mortal seria capaz de entender o que viria escrito na embalagem além das letras garrafais que dizem mentiras sobre o produto? Aaaaaaaah, então quer dizer que quando criaram a legislação de rotulagem estavam, na verdade, ignorando completamente as reais necessidades do consumidor?
Aparentemente, foi isso. E isso foi lá no começo dos anos 2000, no Brasil. A história que me contam é que apenas copiaram fielmente o que tinha sido feito nos Estados Unidos, aquele país de indústria tão honesta, de políticos tão afastados do lobby. Estamos em 2015, quase 2016, e só agora, por insistência minha (sim, desta pessoa que fez um mestrado sobre a comunicação nos rótulos e conseguiu uma cadeira em dois grupos de discussão sobre rotulagem na Anvisa) e boa vontade do técnico responsável (verdadeiramente interessado em melhorar as coisas lá dentro), chamaram uma especialista em design da informação pra dar uma aula lá e derrubar qualquer inocência que pudesse haver restado sobre o que é informar e o que é confundir de propósito. Só agora, com o olhar minucioso do jovem técnico em questão, estão olhando pra outros países, principalmente da América Latina, e buscando soluções melhores. Só agora entendem a diferença que faz chamar para a mesa de discussão profissionais de áreas complementares que não irão baixar a cabeça facilmente para as bogagens mentirosas que o pessoal da indústria repete lá.
Meus amigos, eu entrei nessa vida porque não suporto assistir calada a tanta enganação oficial. O mínimo que eu posso fazer é colocar a boca no trombone. Mas que bom que além disso eu tenho tido a chance de dar sugestões também. E, se elas estão sendo bem recebidas, e se elas podem contribuir para alguma mudança boa, só posso ficar muito feliz e nutrir esperanças de que, com esforço e interesse genuíno, a gente até que vence algumas brigas.
O vídeo de hoje é sobre o que discutimos em Brasília na última reunião do grupo de trabalho sobre rotulagem nutricional da Anvisa, no início de dezembro. Na segunda, 21/12, teremos um bate-papo ao vivo especializado, com a nutricionista do Idec, que também participa do grupo e está mergulhadíssima em estudos sobre o tema. Quanto mais vocês participarem, maior a nossa chance de emplacar as mudanças necessárias.
Amém.

3 Comments

  1. 28/12/2015 at 09:29

    Olá Francine. Achei interessante esta matéria, mas tenho uma critica. Ao mesmo tempo em que você promove alimentos saudáveis, comunicação nutricional mais adequada nos rótulos, um Guia Alimentar Brasileiro mais moderno do mundo e de certa forma não recomenda alimentos ultra processados, aditivos químicos, etc; um link de publicidade do produto Sustagen fica o tempo todo disponível para ser clicado, para promover o produto e dar receitas para os consumidores usando este produto. Por que isso? Sustagen é um produto super processado, não é? Ele contém ingredientes artificiais ou químicos, não tem? Ele também não tem rotulagem nutricional correta ou adequada no rotulo, não é? Seu consumo não deveria ser incentivado, correto? Etc…
    Então, porque você está fazendo publicidade deste produto, ao permitir este link em seu vídeo? Não é uma incoerência com tudo que você vem falando? Achei isso tudo muito estranho e achei que tira a sua credibilidade, não concorda?
    Ou você tem alguma razão financeira para promover este vídeo, como algum patrocínio que recebe da empresa que fabrica este produto?

    • Oi, Roberto. Você se refere ao YouTube ou ao blog? O sistema de aplicação de anunciosn é controlado por robô, a partir de palavras-chave, e não me permite escolher quais anúncios serão ou não serão exibidos. Não tenho nenhum contrato com o fabricante do Sustagem.

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