Um estudante me mandou essas perguntas abaixo, para publicar no jornal da escola. Eis o que respondi.
1. O que você acha dos alimentos industrializados de hoje em dia?
O guia alimentar para a população brasileira, publicado pelo Ministério da Saúde em 2014, classifica os alimentos industrializados em: a) ingredientes culinários; b) alimentos processados; e c) produtos ultraprocessados. Os produtos ultraprocessados são aqueles que oferecem melhor conveniência e praticidade e pior perfil nutricional. Eles tendem a conter excesso de açúcar, excesso de sódio, excesso e gordura, excesso de aditivos químicos, e muitas vezes tudo isso ao mesmo tempo. A indústria quer que compremos esses produtos porque eles são muito lucrativos para ela. Mas o mais saudável é evitá-los e encontrar conveniência e praticidade de outras formas, dando prioridade a alimentos in natura ou minimamente processados (como arroz, legumes, feijão, bife e salada) preparados por métodos domésticos com o auxílio de ingredientes culinários (como azeite e sal) e complementados por alimentos processados (como pão e queijo artesanal).
capa guia
2. O que falta para as empresas fazerem alimentos “bons”?
Falta que os consumidores parem de comprar os ruins, para que as empresas sintam a pressão no faturamento e sejam obrigadas a modificar seus produtos para recuperar as vendas. Isso já vem acontecendo. Fabricantes de refrigerantes passaram a vender sucos, inclusive integrais, porque suas vendas de bebidas adoçadas caíram. O McDonald’s também teve de fechar muitas lojas em vários países. É a queda nas vendas que faz as empresas mudarem seus métodos.
3. O que são as “embalagens honestas”?
São aquelas que informam ao consumidor exatamente o que há em seu conteúdo e não tentam ludibriar ninguém com mensagens e imagens que fazem parecer que o produto é melhor do que de fato é. Os produtos ultraprocessados costumam ter embalagens desonestas, que tentam fazer parecer que eles são muito saborosos, coloridos, cheirosos e nutritivos, quando na verdade o sabor e o aroma só estão lá por causa de “perfuminhos” chamados aromatizantes e açúcar ou sal em excesso, a cor só está lá por causa de corantes e os nutrientes são sintéticos. Eles precisam ter tudo isso para serem “comíveis”, porque sem os aditivos eles seriam totalmente sem graça, porque o ultraprocessamento retira tudo que o alimento tem de bom.
aromatizantes nuggets
4. E dos fast foods, o que acha?
Depende muito de como os lanches são feitos e da origem dos ingredientes. Um hambúrguer caseiro feito com carne de boi criado solto no pasto, sem uso indiscriminado de antibióticos, assado, acompanhado de queijo de vaca criada da mesma forma, com verdura, legumes e temperos orgânicos e frescos, sem resíduos de agrotóxicos e ricos em vitaminas e minerais, pode ser muito saudável. Mas se o hambúrguer vier de uma indústria megalomaníaca que cria os bois confinados a vida toda e os trata com remédios para evitar as doenças do confinamento, e se o queijo for uma gororoba ultraprocessada cheia de aditivos, e se os temperos forem molhos ultraprocessados cheios de aditivos, e a verdura estiver completamente murcha, e o pão for uma esponja molenga sem gosto, aí eu acho melhor não comer. Se a batata frita for apenas batata frita em óleo não transgênico ou fritadeira sem óleo e sem gordura trans, e não uma mistura de 17 ingredientes bizarros frita em gordura cheia de ácidos graxos trans, de vez em quando não tem problema comer.
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O consumidor, em tese, tem o poder de consumir ou não consumir o que a indústria oferece. Mas esse poder de escolha depende de alguns fatores, tais como:
  • A renda. Quem tem pouca grana não pode comprar os produtos de melhor qualidade quando eles são mais caros.
  • A oferta. Se o mercado local não vende as melhores opções, a pessoa vai ter mais trabalho para comprar. Ou vai ter de ir mais longe, ou vai ter de encomendar pra receber em casa, ou vai fazer em casa, na medida do possível, ou vai ficar sem mesmo.
  • O nível de informação. Sem saber a diferença entre o bom, o mediano e o ruim, dificilmente alguém vai exigir o bom. Foi pra isso que criei o canal, aliás. Eu quero que todo mundo saiba a diferença.

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A informação disponivel sobre os alimentos vai melhorar se tivermos rótulos mais honestos, inclusive nas lanchonetes, e também mais projetos de comunicação como o canal Do campo à mesa e outros blogs legais. Quando a gente tem informação, isso começa a afetar a demanda. A gente começa a comprar outras coisas, deixa de comprar outras, vai a outros lugares, conhece outros produtores, outros comércios. Quando os antigos donos do mercado percebem que essa mudança está afetando o seu negócio, aí eles começam correr atrás do prejuízo, pra oferecer o que esse novo consumidor quer. E, quando a oferta disso que o novo consumidor quer aumenta, aí os preços caem e não é mais preciso ter tanta renda para comprar o que é bom.
É esse o ciclo virtuoso que eu quero ver acontecer! 🙂
Este sanduba aí da foto foi feito aqui em casa, com pão industrializado. Tem rúcula e cebola roxa. Seria melhor ainda com carne rastreada orgânica e pão caseiro, né? Mas ainda não foi desta vez. Se não podemos resolver tudo de uma vez, que pelo menos façamos uma redução de danos com o que podemos fazer, não é mesmo?

2 Comments

  1. Por isso que gosto do seu trabalho: você joga limpo e é bastante realista em seus argumentos. A parte em que você cita os 3 tópicos – renda, oferta e nível de informação – retrata muito bem isso.

  2. 12/06/2015 at 09:33

    Primeiro post de muitos que lerei.
    Encontrei o Blog “por acaso” e fiquei muito feliz ao ver as matérias que você postou.
    Parabéns pela iniciativa e muito grata por todas as informações limpas que tem nos passado.
    🙂

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